terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Encontro na Assembleia Legislativa - APROFFESP

Em debate a contribuição da filosofia à dinâmica da sociedade e do ensino
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Carlos Giannazi participa dos debates do 1º Encontro de Professores de Filosofia e Filósofos do Estado de São Paulo
O deputado Carlos Giannazi (PSOL), autor do Projeto de Lei 228/2012, que dispõe sobre a obrigatoriedade da reinserção do estudo da filosofia no currículo escolar do ensino fundamental, participou dos debates do 1º Encontro de Professores de Filosofia e Filósofos do Estado de São Paulo, realizado na Assembleia Legislativa, nos dias 6 e 7/12.
O parlamentar declarou que já acompanhava a movimentação e discussão do projeto desde seu primeiro mandato, em 2007, por acreditar em sua importância. Em sua argumentação pela validade do processo, o parlamentar já esclarecera que contava com o apoio dos profissionais da área e, para ele, a presença dos integrantes da entidade aqui na Casa vem fortalecer e reafirmar o intuito do PL. Giannazi já havia sido procurado, anteriormente, pela professora de História, Elisa Cristina Oliosi em ocasiões anteriores, quando ela defendeu a necessidade da criação de políticas que dessem suporte ao processo de inclusão da filosofia no currículo escolar.
Na visão do deputado, a ocorrência do atual encontro pode contribuir para o aperfeiçoamento do PL de sua autoria. "Para isso estamos abertos a sugestões, por entender que o projeto deve ser construído coletivamente", concluiu Giannazi.
"A filosofia contribui para um melhor acompanhamento, entendimento e discernimento não só de toda a sociedade, mas de todo o conteúdo do ensino", declarou a diretora da Associação dos Professores de Filosofia e Filósofos do Estado de São Paulo (Aproffesp), também coordenadora do Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, Rita Diniz. Em entrevista com a professora Eliane Petrov, no dia 6/12, a filósofa disse acreditar que a reinserção da filosofia no currículo escolar é um ganho para toda a sociedade. Ela também considera o atual encontro como um avanço para toda a categoria da Aproffesp.
Para o diretor da Aproffesp, Antonio Celso de Oliveira, o debate da filosofia tem que ir além do ponto de vista cronológico, que tem a Grécia como berço. Ele declarou: "Há outras e novas perspectivas, como as visões da cultura africana e do mundo oriental".
Carlos Giannazi, Antonio Celso de Oliveira, Aldo dos Santos e Clodoaldo Andrade dos Reis

terça-feira, 6 de novembro de 2012

9 razões para estudar filosofia 3 de Agosto de 2012 A filosofia é uma matéria complicada, que normalmente recebe pouca atenção dos alunos e não é muito procurada para graduação. Confira 9 razões para estudar filosofia na faculdade

No que um diploma de filosofia pode ser útil? Essa é uma questão que pode interessar aos estudantes universitários e àqueles que pretendem se graduar nessa matéria. Por que escolher estudar filosofia? Confira 9 razões:



9 razões para estudar filosofia - 1. Poder de reflexão

Saber refletir sobre os princípios mais importantes que modelam a sua conduta e a sua visão de mundo é uma das atividades mais importantes que você pode adquirir em sua vida. Se você a realiza com precisão, não importa qual for o seu futuro, você terá à sua disposição as mais essenciais ferramentas para enfrentá-lo.


9 razões para estudar filosofia - 2. Criatividade

O estudo da filosofia encoraja o pensamento criativo oral e escrito. Devido ao caráter persuasivo do filósofo, você será treinado para criticar argumentos e inventar propostas alternativas. Isso não é nada mais do que um exercício de criatividade, o qual pode ser precioso a você não importa em qual seja sua futura ocupação.


9 razões para estudar filosofia - 3. Lógica

A filosofia é baseada na argumentação e, portanto, induz à familiariedade com a lógica da argumentação boa e ruim. Além disso, a maioria dos cursos de filosofia tem aula de pensamento crítico e lógica simbólica. Esta é a razão pela qual os estudantes dessa competência são bons em detectar linhas de raciocínio defeituosas, bem como contratos duvidosos.


9 razões para estudar filosofia - 4. Pensar por conta própria

Uma vez que o estudo da filosofia envolve uma boa dose de criatividade, persuasão e rigor lógico, então os filósofos provavelmente sabem pensar por conta própria. Quem não desejaria isso?


9 razões para estudar filosofia - 5. Questões fundamentais

A filosofia é tipicamente dedicada a responder questões fundamentais. Portanto, estudantes dessa matéria normalmente são educados para pensar nas mais básicas suposições em relação ao problema que estão enfrentando. Essa habilidade pode ser crucial em diversas situações de nossas vidas.


9 razões para estudar filosofia - 6. Escrita autêntica

A filosofia encoraja a escrita autêntica. Em redações filosóficas, mesmo que você esteja analisando a opinião de um outro autor, você não pode simplesmente copiar e colar as palavras do filósofo. Você precisa usar suas próprias palavras e realizar suas próprias críticas.


9 razões para estudar filosofia - 7. Oratória autêntica

Análogo ao já explicado na dica 6, para discutir filosofia, você tem que saber expressar o seu ponto de vida a um oponente com as suas próprias palavras.


9 razões para estudar filosofia - 8. Ler criticamente

Para ler filosofia, é preciso ter pensamento crítico. Quando você está lendo um texto filosófico, é necessário identificar o problema principal, assim como os argumentos que suportam essa visão e avaliá-los. Esta é uma habilidade que pode ser transportada a diversos outros campos e, inclusive, uma das razões pelas quais estuda-se filosofia em cursos de comunicação.


9 razões para estudar filosofia - 9. Emprego

Cada vez mais as escolas têm contratado professores de filosofia, pois esta é uma matéria - pelo menos teoricamente - obrigatória no currículo do Ensino Médio. Além disso, ela está cada vez mais presente no vestibular. Finalmente, alguns artigos têm saído na internet, vindo principalmente de portais americanos, elogiando a perfomance de filósofos no mundo dos negócios. Até o New York Times já elogiou filósofos.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

SEMINÁRIO MULTIDISCIPLINAR

O QUE É FILOSOFIA?



“Qual é a coisa mais importante da vida?"
Se fazemos essa pergunta a uma pessoa de um país assolado pela fome, a resposta será: a comida. Se fazemos a mesma pergunta a quem está morrendo de frio, então a resposta será: o calor. E quando perguntamos a alguém que se sente sozinho e isolado, então, certamente, a resposta será: a companhia de outras pessoas.

Mas, uma vez satisfeitas todas essas necessidades, será que ainda resta alguma coisa de que todo mundo precise? Os filósofos acham que sim. Eles acham que o ser humano não vive apenas de pão.

É claro que todo mundo precisa de comida, de amor e de cuidado. Mas ainda há uma coisa de que todos nós precisamos. Nós temos a necessidade de descobrir quem somos e por que vivemos.

(...) Embora as questões filosóficas digam respeito a todas as pessoas, nem todas se tornam filósofos. Por diferentes motivos, a maioria delas é tão absorvida pelo cotidiano que a admiração pela vida acaba sendo completamente reprimida. Um filósofo nunca é capaz de se habituar completamente com este mundo. Para ele, o mundo continua a ter algo de incompreensível, algo até de enigmático, de secreto, embora a maioria das pessoas vivencie o mundo como uma coisa absolutamente normal. Isso quer dizer que ele sempre vê as coisas com espanto, a admiração ou a curiosidade, como se fosse a primeira vez.

(...) Em algum lugar, dentro de nós, alguma coisa nos diz que a vida é um grande enigma. E já experimentamos isto, muito antes de aprendermos a pensar. ”

GAARDER, Jostein. O que é Filosofia. In: O Mundo de Sofia. Companhia das Letras.

O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? (...) Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos – com esforços, hesitações, sonhos e ilusões – daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diversamente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é (...)
FOUCAULT, Michel. Sobre a Filosofia. In Estética dell’esistenza, Etica, Politica, v. 3.


AUTORIDADE DO MITO


“O mito conta uma história sagrada, quer dizer, um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo, ab initio. Mas contar uma história sagrada equivale a revelar um mistério, pois as personagens do mito não são seres humanos: são deuses ou Heróis civilizadores. Por esta razão suas gesta constituem mistérios: o homem não poderia conhecê-los se não lhe fossem revelados. O mito é pois a história do que se passou in illo tempore, a narração daquilo que os deuses ou os Seres divinos fizeram no começo do Tempo. “Dizer” um mito é proclamar o que se passou ab origine. Uma vez “dito”, quer dizer, revelado, o mito torna-se verdade apodítica: funda a verdade absoluta. “É assim porque foi dito que é assim”, declaram os esquimós netsilik a fim de justificar a validade de sua história sagrada e suas tradições religiosas. O mito proclama a aparição de uma nova “situação” cósmica ou de um acontecimento primordial. Portanto, é sempre a narração de uma “criação”: conta se como qualquer coisa foi efetuada, começou a ser É por isso que o mito é solidário da ontologia: só fala das realidades, do que aconteceu realmente, do que se manifestou plenamente.”

O Sagrado e o Profano - Mircea Eliade


A MARAVILHA COMO INÍCIO DO FILOSOFAR



"A maravilha sempre foi, antes como agora, a causa pela qual os homens começaram a filosofar: a princípio, surpreendiam-se com as dificuldades mais comuns; depois, avançando passo a passo, tentavam explicar fenômenos maiores, como, por exemplo, as fases da lua o curso do sol e dos astros e, finalmente, a formação do universo. Procurar uma explicação é admirar-se; é reconhecer-se ignorante. Por isso, pode-se dizer que sob certo aspecto o filósofo é também amante do MITO: uma vez que o MITO se compõe de maravilhas."

Aristóteles, In: Reale, Giovanni (Ed.). Metafísica. São Paulo. Loyola, 2002. V. I.


FEBRE JÔNICA

Quando a Babilônia e o Egito declinaram chegou a vez da Grécia. No começo, desenvolveu-se a cosmologia grega quase no mesmo sentido: o mundo de Homero é outra ostra, mais colorida, um disco flutuante rodeado pelo oceano. Porém, pela época em que os textos de Odisséia e da Ilíada se consolidaram na versão definitiva, verificou-se na Jônia, nas costas do Mar Egeu, um novo desenvolvimento. O sexto século antes de Cristo – o milagroso século de Buda, Confúcio e Lao-Tsé, dos filósofos jônicos e de Pitágoras – constituiu o ponto crítico da espécie humana. Foi como se uma aragem de março soprasse através deste planeta, da China a Samos, despertando a consciência do homem, como o sopro nas narinas de Adão. Na escola jônica de filosofia, o pensamento racional ia emergindo no mundo de sonho mitológico. Era o início da grande aventura: a indagação prometiana* das explicações naturais e causas racionais, que, nos 2 mil anos seguintes, transformaria a espécie mais radicalmente do que haviam feito os 200 mil anos anteriores.

Koestler, Arthur. Os sonâmbulos. São Paulo: Ibrasa, 1961, p. 5.

*Prometiano: próprio de Prometeu, personagem da mitologia grega que roubou o fogo aos deuses e o entregou aos homens, dando-lhes a possibilidade do conhecimento e do progresso. Zeus o puniu, acorrentando-o numa rocha para que uma águia lhe devorasse o fígado eternamente.



A FILOSOFIA COMO PROCURA DA VERDADE

Em seu pequeno e brilhante livro Introdução à Filosofia, o filósofo e psiquiatra alemão, Karl Jaspers insiste na idéia de que a essência da filosofia é a procura do saber e não a sua posse. Todavia, ela “se trai a si mesma quando degenera em dogmatismo, isto é, num saber posto em fórmula, definitivo, completo. Fazer filosofia é estar a caminho; as perguntas em filosofia são mais essenciais que as respostas, e cada resposta transforma-se numa nova pergunta”. Há, então, na pesquisa filosófica uma humildade autêntica que se opõe ao orgulhoso dogmatismo do fanático: o fanático está certo de possuir a verdade. Assim sendo, ele não tem mais necessidade de pesquisar e sucumbe à tentação de impor sua verdade a outrem. Acreditando estar com a verdade, ele não tem mais o cuidado de se tornar verdadeiro; a verdade é seu bem, sua propriedade, enquanto para o filósofo é uma exigência. No caso do fanático, a busca da verdade degradou-se na ilusão da posse de uma certeza. Ele se acredita o proprietário da certeza, ao passo que o filósofo esforça-se por ser peregrino da verdade. A humildade filosófica consiste em dizer que a verdade não pertence mais a mim que a ti, mas que ela está diante de nós. Assim, a consciência filosófica não é uma consciência feliz, satisfeita com a posse de um saber absoluto, nem uma consciência infeliz, presa das torturas de um ceticismo irremediável. Ela é uma consciência inquieta, insatisfeita com o que possui, mas à procura de uma verdade para a qual se sente talhada.

HUISMAN, Denis; VERGEZ, A. Ação. 2. ed. SP: Freitas Bastos, 1966, v. 1, p. 24.


POEMA

”Sozinho vou agora, meus discípulos! Também vós, ide embora, e sozinhos! Assim quero eu.

Afastai-vos de mim e defendei-vos de Zaratustra! E, melhor ainda: envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado.

O homem do conhecimento não precisa somente amar seus inimigos, precisa também poder odiar seus amigos.

Paga-se mal a um mestre, quando se continua sempre a ser apenas o aluno. E por que não quereis arrancar minha coroa de louros?

Vós me venerais, mas, e se um dia vossa veneração desmoronar? Guardai-vos de que não vos esmague uma estatua!

Dizeis que acreditais em Zaratustra? Mas que importa Zaratustra ! Sois meus crentes, mas que importam todos os crentes!

Ainda não vos havíeis procurado: então me encontrastes. Assim fazem todos os crentes; por isso importa tão pouco toda crença.

Agora vos mando me perderdes e vos encontrardes; e somente quando me tiverdes todos renegado eu retornarei a vós... Apesar do inverno mais rigoroso, e do verão ainda, mais inclemente, por causa do aquecimento global, (meu caro, Alvani Correia), aproveito os momentos de dúvidas, depois de uma leitura em voz alta deste poema, para compartilhar a solidão a dois, como nos ensina Baruch Spinosa. Afinal, o príncipe dos filósofos moderno, já dizia que “não existem bem e mal como ensina a tradição judaico-cristã, mas apenas o bom e o mau encontro”.

NIETZSCHE, Friedrich. Obras incompletas: São Paulo: Abril, 1974 p. 375 (Os Pensadores, 32)

Grandes temas da Filosofia - Seminário

A ARTE DE AMAR

O homem é dotado de razão; é a vida consciente de si mesma; tem, consciência de si, de: seus semelhantes, de seu passado e das possibilidades de seu futuro. Essa consciência de si mesmo como entidade separada, a consciência de seu próprio e curto período de vida, do fato de haver nascido sem ser por vontade própria e de ter de morrer contra sua vontade, de ter de morrer antes daqueles que ama, ou estes antes dele, a consciência de sua solidão e separação, de sua impotência ante as forças da natureza e da sociedade, tudo isso faz de sua existência apartada e desunida uma prisão insuportável. Ele ficaria louco se não pudesse libertar-se de tal prisão e alcançar os homens, unir-se de uma forma ou de outra com eles, com o mundo exterior.

Erich Fromm

Amigo

Um amigo é alguém com quem se está bem, mas um amigo é muito mais que isso, é alguém que pensa em ti quando não estás aqui, alguém que pede a Deus por ti, quando tens que fazer algo dificil. Nunca se está realmente só quando se tem um amigo.

Um amigo ouve o que tu dizes, e tenta compreender o que tu não sabes dizer. Mas um amigo não está sempre de acordo contigo, um amigo contradiz-te e obriga-te a pensar honestamente. Um amigo gosta de ti, mesmo que faças besteiras. Um amigo ensina-te a gostar de coisas novas, não teria imaginado estás coisas se estivesses sozinho.

Amigo é uma palavra bonita, é quase a melhor palavra!! Um amigo é alguém que tem sempre tempo para ti quando apareces.

Toda gente pode ter um amigo, mas não vivas tão apressado, que nem vejas que há alguém que quer ser teu amigo.

Um amigo é alguém que é para ti uma festa, alguém que pensa em ti e te ouve, e te ajuda a saber o que tu és. Alguém que está contigo, e não tem pressa. Alguém em quem tu podes acreditar! Quem é teu amigo?

Leif Kristiansson


UTOPIA E PAIXÃO

"É dos mais neuróticos e parasitários o amor que leva uma pessoa a achar a outra um pedaço de si mesma. (...)

O saudável, nas relações amorosas, seria primeiro, que as pessoas já tivessem conseguido crescer até o tamanho total de si própria. Depois, aprendesse a viver por si mesma e de si mesma. Só então acasalasse com alguém que tivesse tido igual desenvolvimento e soubesse viver de si mesma também. Assim, inteiros e juntos, começariam a viver sensações inéditas, extraordinárias, impossíveis de se viver sozinho e que não existem em nós nem sequer em semente. É o amor suplementar de que falamos. Nesse ponto, é bom proclamar o que se constitui em nossa ética fundamental: o amor não deve servir para coisa alguma, a não ser apenas para se amar.

Quando, por uma razão qualquer, a relação amorosa se desfaz, o que se desfaz de fato é só a relação amorosa e não as vidas e a integridade de cada um. E o que se tem observado é que, por mais denso que tenha sido o amor, quando ele se desfaz nas relações sadias (suplementares), surgem logo novos encontros, novos namoros e seduções; o amor pode se refazer. É outro, original, porém com intensidade e qualidade semelhante ao anterior."

Roberto Freire e Fausto Brito


O MITO DE NARCISO

“Em tempos idos, na Grécia, o rio Cefiso engravidou a ninfa Liríope. Meses depois, Liríope, apesar de não desejar a gravidez, deu a luz a uma criança de beleza extraordinária. Por causa disso, Liríope consultou o adivinho Tirésias sobre o futuro de seu filho, e ele vaticinou (profetizou) que Narciso viveria, desde que nunca visse sua própria imagem.

Sob essa condição, ele cresceu e tornou-se um moço tão belo quanto o fora quando criança. Não havia quem não se apaixonasse por ele. Narciso, entretanto, permanecia indiferente.

Um dia, porém, estando sedento, Narciso aproximou-se das águas plácidas de um lago e, ao curvar-se para beber, viu uma imagem refletida no espelho das águas. Maravilhado com sua própria figura, apaixonou-se por si mesmo. Desesperadamente, passou a precisar do objetivo de seu amor, viu que não conseguiria mais viver sem aquele ser deslumbrante. Sua vida reduziu-se à contemplação daquele jovem tão belo: desejava-o, queria possuí-lo. Desvairado, inclinando-se cada vez mais ao encontro do ser amado, mergulhou nos braços frio da morte.

Às margens do lago, nasceu uma entorpecedora flor: o narciso. Ela relembra para sempre o destino trágico daquele que , aparentemente apaixonado por si mesmo, era, na verdade, incapaz de amar”.


RECONHECIMENTO DO AMOR

Como nos enganamos fugindo ao amor!
Como o desconhecemos, talvez com receio de enfrentar
sua espada coruscante, seu formidável
poder de penetrar o sangue e nele imprimir
uma orquídea de fogo e lágrimas.
Entretanto, ele chegou de manso e me envolveu
Em doçura e celestes amavios.
Não queimava, não siderava; sorria,
Mal entendi, tonto que fui, esse sorriso,
Feri-me pelas próprias mãos, não pelo amor
Que trazia para mim e que teus dedos confirmavam
Ao se juntarem aos meus, na infantil procura do Outro,
o Outro que eu me supunha, o Outro que te imaginava,
quando – por esperteza do amor – senti que éramos um só.

Carlos Drummond de Andrade

Apaixonar...

“ Apaixonarmo-nos não é apenas sermos atraídos por uma pessoa, vê-la bela e desejável. É uma mudança interior de todo o ser; vemos o amado diferente porque nos tornamos diferentes. A nossa sensibilidade centuplicou-se, as cores tornaram-se luminosas, límpidos os sons. Pelo fato de o amarmos a ele, ao nosso amado, todas as outras pessoas nos surgem de outro modo. Antes de tudo mais humanas. Enquanto até aí mal a víamos, agora conseguimos intuir os seus sentimentos, é como se nos tivéssemos tornados capazes de nos pormos em comunicação com elas. Já não temos vontade de mentir. Sobretudo a nós próprios e ao ser amado. Percorremos de novo, na recordação, a nossa vida e percebemo-nos de que antes de termos encontrado quem amamos, esta vida era mesquinha, insípida. O ser amado não é a perfeição, vemos os seus defeitos; se é pequeno ou magro, ou tem o nariz comprido ou curto. Mas todas essas coisas deixam de se tornar defeitos, porque conseguimos agora ver a sua essencialidade e o seu valor. Os nossos olhos tornam-se capazes de descobrir a beleza do ser tal como é. E se o amado nos diz sim, então somos felizes e gostaríamos que o tempo parasse, e que todos os seres humanos fossem também felizes, e toda a humanidade e todo o universo a que nos sentimos unidos de modo íntimo e solidário.”

Albertoni



A ARTE DE AMAR

O amor não é, primacialmente, uma relação para com uma pessoa específica, é uma atitude, uma orientação de caráter, que determina a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com um 'objeto' de amor. Se uma pessoa ama apenas a uma outra pessoa e é indiferente ao resto dos seus semelhantes, seu amor não é amor, mas um afeto simbiótico, ou um egoísmo ampliado.

Contudo, a maioria crê que o amor é constituído pelo objeto e não pela faculdade. De fato, acredita-se mesmo que a prova da intensidade do amor está em não amar ninguém além da pessoa 'amada'. Este é o mesmo equívoco de que acima já falamos. Por não se ver que o amor é uma atividade, uma força da alma, acredita-se que tudo quanto é necessário encontrar é o objeto certo - e tudo mais irá depois por si.

Tal atitude pode ser comparada à de alguém que queira pintar mas, em vez de aprender a arte, proclama que lhe basta esperar pelo objeto certo, passando a pintá-lo belamente quando o encontrar.

Se verdadeiramente amo alguém, então amo a todos, amo o mundo, amo a vida. Se posso dizer a outrem 'Eu te amo', devo ser capaz de dizer: "Amo em ti a todos, através de ti amo o mundo, amo-me a mim mesmo em ti".

Dizer que o amor é uma orientação que se refere a todos e não a um não implica, entretanto, a idéia de que não haja diferenças entre vários tipos de amor, que dependem da espécie de objeto que é amado.

Erich Fromm


TER O SEXO TORNOU FÁCIL, MAIS DIFICIL TER O AMOR

"Outra coisa, porém chama a minha atenção nos grupos de jovens que conheço: namoram muito e não namoram nada.

Namoram muito porque têm sempre um namorado ou uma namorada em campo, alguém em quem estão interessados, alguém que estão "azarando". Mas ao mesmo tempo não namoram nada, porque essas relações são muito inconsistentes. O casal se junta e se separa com a mesma facilidade. Não há amor, não há envolvimento. Há desejo hepidérmico. na verdade, não são namoros, são causalidades.

E como começam muito cedo, de uma causalidade em outra passa-se o tempo. Agradável a princípio, excitante, uma espécie de tiroteio cerrado de desejo, de busca, de troca. Mas cansativo a longo prazo, desapontador. Do amor afinal, esperavam mais do que isso.

Quando eu tinha 16 anos não se ia para a cama. Em compensação amava-se deliberadamente. Vai ver era por isso mesmo: não indo para a cama não se "esvaziava" o desejo, não se matava a sede, e então durante meses e meses, ia-se procurar aplaca-la na boca do amado, nas mãos errantes na acolhedora escuridão das matinês. Dentro de mim eu era uma grande eroína romântica, estava vivendo um grande amor .

Naquele tempo faltava uma coisa, hoje falta outra. Eu não podia me dar ao sexo. Eles não conseguem se dar ao amor. As moças com quem converso dizem que gostariam, que têm vontade de ter um namoro mais consistente, mas que os rapazes não querem. Será verdade? Mas será que eles não querem mesmo? Ou será que como elas, querem e não conseguem.

A tendência é achar que não param em nenhum(uma), porque podem ter todos(as).

Se eu disser que fogem do envolvimento porque costumam ter em casa exemplos de relação tumultuadas ou desastrosas, estarei fazendo psicologismo barato, porque a minha geração também teve exemplos paternais nada animadores.

Acontece também que são filhos diretos da baixa do amor, do descrédito da relaçao, e da ênfase nas emoções tonitruantes. Enquanto deixam o amor de lado, procuram terremotos emocionais no "som", no "brilho", "nos riscos".

Mas uma idéia me ocorre e parece ser mais acertada. A de que os jovens estejam de forma inconsciente, fugindo do amor justamente porque podem ter o sexo.

Explico melhor: o amor é uma emoção importante, mas o sexo também, mas só o amor somado ao sexo constitui a emoção fundamental do ser humano. Ora, nem todos os jovens têm o mesmo grau de amadurecimento.

E nem todos eles se sentem prontos para chegar ao topo do seu universo emocional. Antes todos podiam ter amor, e só os mais maduros - ou mais inconscientes - se lançavam na completude amor/sexo.

Agora acontece exatamente o oposto: tendo o sexo, evitam somá-lo ao amor, adiando a sobrecarga emocional que não se sentem capazes de enfrentar".

COLASSANATI, Marina. E por falar em amor. Rio de Janeiro: Salamadra, 1984.p 01-2


 A DEVORAÇÃO DA ESPERANÇA NO PRÓXIMO

No individualismo contemporâneo, a impessoalidade converteu-se em indiferença, e os elos afetivos da intimidade foram cercados do medo, reserva, reticência e desejo de autoproteção. Pouco a pouco desaprendemos a gostar de “gente”. Entre quatro paredes ou no anonimato das ruas, o semelhante não é mais o próximo solidário: é o inimigo que traz intranqüilidade, dor ou sofrimento. Conhecer alguém; aproximar-se de alguém; relacionar-se intimamente com alguém passou a ser uma tarefa cansativa. Tudo é motivo de conflito, desconfiança, incerteza e perplexidade. Ninguém satisfaz a ninguém. Na praça ou na casa vivemos – quando vivemos – uma felicidade de meio expediente em que reina a impressão de que perdemos a vida “em colherinhas de café”.

As elites ocidentais são elites sem causa e, no Brasil, estamos repetindo o que, secularmente, aprendemos a imitar. Como nossos modelos europeus e americanos, reagimos ao sentimento de miséria com medo; à opulência com apatia, imobilidade e conformismo. Construir um mundo justo? Para quê? Para quem? Por acaso um mundo mais justo seria aquele em que todos pudessem ter acesso ao que as elites têm?

Mas, o que têm as elites a oferecer? Consumo, tédio, insatisfação e ostentação. Bem ou mal, em nossa tradição moral e intelectual, respondíamos às crises de identidade, reinventando utópicas formas de vida em mundos melhores.

Hoje aposentamos os “Rousseau”. Em vez de utopias, manuais de auto-ajuda, psicofármacos, cocaína, e terapêuticos diversos para os que têm dinheiro; banditismo, vagabundagem, mendicância ou religiosismo fanático para os que apenas sobrevivem.

Fizemos de nossas vidas claustros sem virtudes; encolhemos nossos sonhos para que coubessem em nossas ínfimas singularidades interiores; vasculhamos nossos corpos, sexos e sentimentos com a obsessão de quem vive um transe narcísico, e, enfim, aqui estamos nós, prisioneiros de cartões de crédito, carreiras de cocaína e da dolorosa consciência de que nenhuma fantasia sexual ou romântica pode saciar a voracidade com que desejamos ser felizes. Sozinhos em nossa descrença, suplicamos proteção a economistas, policiais, especuladores e investidores estrangeiros, como se algum deles pudesse restituir a esperança “no próximo” que a lógica da mercadoria devorou.

FREIRE COSTA, Jurandir. Folha de S. Paulo, 22.09.1996. Mais 5º. Caderno


AMA E FAZE O QUE QUISERES
Santo Agostinho também procurou refletir sobre a melhor conduta que o ser humano devia seguir, delineando uma ética harmonizada com os preceitos morais cristãos. Na vida, há experiências que proporcionam prazer; entretanto, elas são apenas alegrias parciais e transitórias, incomparáveis com a felicidade absoluta de estar na presença de Deus. Essas experiências devem servir para que o homem dirija seu espírito ao verdadeiro bem, que é alcançável somente através de Jesus Cristo. Por exemplo, a contemplação das belezas naturais (como o céu, os mares, os animais, etc.) não deve ser apreciada como um fim em si mesma, mas sim como uma pequena amostra da verdadeira beleza, da alegria infinita que somente o criador de todas as coisas pode oferecer. Para Santo Agostinho, o amor é a essência da substância divina, está presente em todos os homens e é a energia que move o comportamento humano. Por isso, é por meio de seu direcionamento para a busca das verdades superiores que o homem pode atingir a felicidade de repousar em Deus. Em outras palavras, isso significa amar a Deus sobre todas as coisas e amar o próximo como a si mesmo, como determinam os evangelhos. O amor, entretanto, pode se dirigir para coisas passageiras, como o prazer carnal. Nesse caso, ele estará se desviando de sua natureza, que é a de almejar os prazeres superiores.

Por meio desse raciocínio, chegamos à definição agostiniana de “mal”. Nas palavras de Santo Agostinho, o mal é: “a perversão da vontade desviada da substância suprema”. É o amor dirigido às criaturas como se elas tivessem valor por si mesmas, como se a sua Beleza, o prazer que proporcionam ou o afeto com que retribuem o amor não se originassem do ato de amor infinito de Deus: a criação. 

Assim decifra-se o dito agostiniano “ama e faze o que quiseres”: se o homem ama verdadeiramente, isto é, como Deus ama, com gratuidade e fazendo o bem aos outros, sua vontade será guiada corretamente; por isso, ser e agir conforme a própria vontade, iluminada pelo amor divino é a garantia de que essa liberdade de ação será justa, ou seja, ética. O amor que conduz o homem a agir corretamente segundo a vontade de Deus, conforme Santo Agostinho ensinou, só vem a existir no coração dos indivíduos pela ação da “graça”, na exposição da polêmica que o bispo de Hipona manteve contra a heresia dos pelagianos.

CHALITA, Gabriel. Vivendo a Filosofia. Editora Ática. São Paulo: 2005.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Afinal, qual é o problema da educação?



O governo culpa os professores pela má qualidade do ensino, mas não enxerga o verdadeiro problema e tenta resolvê-lo com receitas prontas e acabadas. Em São Paulo o governo criou  a progressão continuada, os ciclos, a avaliação contínua, a recuperação paralela, deu um novo sentido ao conceito de escola (a escola aprendente), deu também um novo sentido ao papel do coordenador. Contudo, nenhuma dessas ações surtiu efeito. As avaliações externas como Saresp, Saeb, Prova Brasil demonstram resultados pífios. O governo se exime da culpa e diz que o problema está na formação dos professores.  Desde então tem feito esforços para dar uma melhor formação aos professores através de cursos e de uma prática reflexiva nas HTPCs. Para o governo, os problemas educacionais são constantemente reduzidos a questões que podem ser resolvidas no âmbito do indivíduo, do esforço pessoal do professor. O professor é visto como o Messias da educação; é um ser dotado de inesgotável força de vontade que deve estar permanente disposto a se superar no cumprimento de sua missão. O importante é que cada um faça sua parte para que a educação melhore. O que o governo ainda não enxergou, por miopia, é que os problemas da educação são problemas políticos, sociais e culturais. São vários os fatores que levam o aluno a um déficit de aprendizagem. Citaremos apenas alguns deles:
Primeiro, é um problema de política pedagógica, pois institui a progressão continuada, que em termos práticos torna-se progressão automática. O aluno perde a motivação para aprender, pois sabe que não precisará fazer esforços para passar de ano. O professor torna-se impotente diante dessa situação e perde sua autoridade, pois a nota que ele aufere do aluno não tem valor Em conseqüência disso, a indisciplina se institucionaliza. A escola torna-se o local do encontro, da amizade, do namoro, da sociabilidade, mas quase nunca do ensino. Outro problema ligado à progressão continuada é fato de as crianças chegarem ao final do primeiro ciclo sem saber ler e escrever ou chegar ao ensino médio analfabetos funcionais, sendo incapazes de interpretar um texto.  Isso ocorre porque o aluno não consegue  aprender novas competências por causa de déficits de aprendizagem em séries anteriores. O aluno sente dificuldade de desenvolver novos esquemas mentais e conhecimentos  necessários exigidos. Dessa forma, ele não consegue assimilar os conteúdos e habilidades necessários para seguir em frente.
Segundo, o problema da educação é também um problema estrutural. A escola pública no Brasil tem um modelo arquitetônico prisional. Michel Foucault, filósofo Francês, já havia estudados os males que este tipo de arquitetura causa ao indivíduo. Para ele, este tipo de arquitetura é uma arquitetura de esquadrinhamento, da observação, da disciplina, do controle, cujo único objetivo e controlar os indivíduos criando seres dóceis e serviçais ao mercado de trabalho. O aluno  da escola pública vive numa prisão. A falta de comprometimento  nos estudos,  a desmotivação, a falta de interesse do aluno é em boa parte criada por esta estrutura prisional, onde as aulas tornam-se monótonas e chatas. Falta  a escola pública  uma estrutura material para que o aluno goste de estudar, como áreas verdes, quadras, equipamentos, salas de estudo, salas de teatro, salas de vídeo, salas de ginástica, biblioteca, materiais para uso em sala de aula, etc.  Um ambiente agradável com uma estrutura impecável é imprescindível para que o aluno aprenda.
Terceiro, o problema da educação é também social. Os problemas educacionais refletem as contradições da própria sociedade. Na base da educação há uma família geralmente carente material e intelectualmente. Pobreza, fome,  falta de trabalho e falta de perspectiva são fatores que minam a educação. O Brasil é um das dez maiores economias do mundo, mas em indicadores sociais ela está ao lado de Botsuana e Moçambique: 30 milhões vivem em estado de miséria; 80 milhões não conseguem consumir as 2240 calorias mínimas exigidas para uma vida normal; 60% dos trabalhadores no Brasil ganham até um salário mínimo. 50% da riqueza concentram-se nas mãos de 10% da população que ganham mais de dez salários. São Paulo, a cidade mais rica do Brasil, não foge a estes dados. O subemprego é uma realidade da grande maioria das famílias paulistas: faxineiras, camelos, lavadores de carro, pedreiros, pintores, eletricistas ocasionais são comuns. Tais pessoas apresentam baixo nível de consumo e renda e baixo nível educacional sendo incapazes de acompanhar seus filhos e dar uma boa assistência a eles.
Quarto, é um problema de política salarial e de valorização do professor. Os baixos salários, o descaso, o desrespeito, a imposição de políticas pedagógicas; tudo isso somado têm reflexos na educação. Os bons salários de alguns grupos de funcionários públicos, como os de juízes, promotores e políticos é provocado pelo subdesenvolvimento de outros grupos, como o de professores. Para que alguns grupos possam receber melhores salários e acumular patrimônios outros grupos necessitam ser explorados e sacrificados. O acesso aos benefícios está desigualmente repartido. Em conseqüência dos baixos salários e dos descasos com a classe, o professor perde a motivação, não tem prazer em dar aulas, resigna-se, não fazendo um bom trabalho.
Quinto, é um problema cultural, pois a sociedade não faz cobranças à escola. Nas escolas públicas não há colegiados, não há conselhos, não há grêmios escolares. As desvalorizações por parte da sociedade brasileira em relação ao saber e ao conhecimento têm reflexos em toda estrutura educacional. Uma sociedade que não valoriza o conhecimento é uma sociedade sem história, sem memória. A participação da sociedade como um todo nas questões educacionais deve ser o cimento que constrói a nossa cultura, que defende as sociedades locais, que preserve nossa memória e consciência contra as ameaças de grupos , de ideologias e de interesses políticos. A participação da comunidade na escola é imprescindível para melhorar a qualidade do ensino e para gerar a consciência política e reflexiva sobre os fatos.
Como vimos, O problema da  educação não pode se resolvido no âmbito do microcosmo da escola e do esforço individual de cada um. O governo reduz o problema da educação em termos operacionais, ao voluntarismo. “Escola da família”, “amigo da escola”, “escola para todos” são termos que nos mostram que cabe a comunidade e as professores resolver os problemas da educação. As idéias vinculadas à TV de um professor esforçado, voluntarioso, feliz, decidido a resolver os problemas da educação não condiz com a realidade. Educação não é auto-ajuda Os problemas educacionais não podem ser resolvidos apenas no âmbito do individuo, da comunidade e do esforço pessoal do professor. O problema da educação é antes de tudo um problema político e social.

Marx e Nietzsche:um diálogo possível


Por Michel Aires de Souza
Será que é possível aproximar as filosofias de Marx e Nietzsche? Suas teorias são completamente contrárias, pois um filosofa sobre a escassez e o outro sobre a superabundância; um filosofa para os trabalhadores, pobres e oprimidos e o outro para os fortes e dominadores; um filosofa sobre a política e a economia e o outro sobre o poder e a moral.
          Marx criou uma teoria política que explica a história humana como a história da luta de classes. Ele postulou o fim da sociedade capitalista a partir de contradições internas, que culminaria com a revolução proletária e a tomada do poder. Seu principal livro é o “Capital”, que contém uma interpretação sócio-econômica da histórica, conhecida como materialismo-histórico. Também escreveu a “Ideologia Alemã”, onde desvelou os mecanismos de dominação da minoria mais rica sobre o resto da população. Através do seu conceito de ideologia, mostrou-nos que a consciência que temos de nós mesmos e do mundo  é uma falsa consciência, mantendo-nos alienados de si mesmo e dos modos de produção. A filosofia de Marx é uma tentativa de transformar a sociedade e libertar o ser humano da repressão e da alienação, através de uma mudança revolucionária.
     Nietzsche, ao contrário de Marx, tem horror às massas e aos trabalhadores, é o filósofo do poder e da vontade de potência. Enquanto Marx tornou-se o filósofo dos proletários, excluídos e miseráveis, Nietzsche rendeu homenagens aos valores dos fortes e poderosos, tornando-se inimigo do “amolecimento moderno dos sentimentos” e condenando o homem moral, fraco e religioso. Com isso, propôs-se a si mesmo fazer uma crítica dos valores morais, colocando em questão o próprio valor desses valores. Ele também é considerado o grande crítico da civilização ocidental racionalista, sua crítica está na raiz do que chamamos hoje de “crise da modernidade”. Nietzsche identificou a razão e a racionalidade com a decadência e o ódio aos instintos. A racionalidade desde o nascimento da filosofia tornou a razão (logos) o paradigma para o mundo ocidental, fundamentado nas categorias éticas que têm orientado os homens ao longo da história, reprimindo os instintos de vida celebrados pela tragédia grega, em nome de uma vida ética, consciente, sem instinto. Para ele o “logos” subjugou os instintos criadores. O homem trágico que age guiado pelos instintos foi substituído pelo homem racional. A vida foi subjugada pela razão. A filosofia de Nietzsche é uma filosofia dos afetos, das paixões e desejos, que contempla o individualismo, a força, a abundância e os instintos de vida.  
        Apesar das ressalvas que podemos fazer às filosofias de Marx e Nietzsche, é possível um diálogo entre esses dois pensadores, pois ambos respondem a uma mesma experiência histórica, ambos representam uma mudança decisiva no modo de compreender o homem, a cultura, a sociedade e o poder. Mas o que há de mais peculiar,  é que ambos possuem uma mesma perspectiva quanto à gênese do sujeito e do pensamento. Ambos concordam que o ser humano não é algo acabado, pronto, estável, não existe uma natureza humana já definida. O sujeito não é uma idealidade auto-suficiente e incondicionada. Para Marx o sujeito é determinado por aquilo que ele faz. O sujeito é determinado pelo seu “ser social”. É o comportamento material que fomenta suas representações e pensamento. Marx nos ensinou que, se examinarmos a maneira pelas quais os homens produzem os bens necessários à vida, é possível compreender as formas de seu pensamento, tais como sua moral, religião e filosofia. “A produção de idéias, de representações e da consciência está em primeiro lugar direta e intimamente ligada à atividade material e ao comércio material dos homens (…)” (Marx, 1976, p.25). Nietzsche não pensa diferente. Enquanto Marx valoriza os modos de produção na gênese do sujeito e do pensamento, Nietzsche valoriza o comércio como valor civilizador e formador da consciência. Em seu livro “Genealogia da Moral” Nietzsche se opõe à idéia de origem do sujeito e passa a compreender este através de uma genealogia, que o concebe emergindo através de relações de poder, através de um turbilhão de forças que o atinge. Não existe uma identidade metafísica, o ser humano não é um átomo, uma mônada. O sujeito se constitui no terreno dos acontecimentos históricos, das contradições, das relações de força e poder. O conceito de genealogia concebe o sujeito enquanto ser no mundo, onde o corpo se torna visível e um efeito dos embates de forças. Tal como em Marx, as formas de consciência como a filosofia, a moral, a cultura e as leis emergem em Nietzsche através das condições materiais de existência. O sujeito como ser racional e moral surge através das relações de troca e intercâmbio material entre os homens. Com Nietzsche aprendemos que “estabelecer preços, medir valores, imaginar equivalência, trocar – isso ocupou de tal maneira o mais antigo pensamento do homem que num certo sentido constituiu o pensamento: aí se cultivou a mais velha perspicácia, aí se poderia situar o primeiro impulso do orgulho humano, seu sentimento de primazia frente aos outros animais” (Nietzsche, 1988, p.73). É por meio  desses dois livros, a “ideologia Alemã” e a “Genealogia da moral”, que Marx e Nietzsche se reconciliam.
         Para Marx o mundo não é uma manifestação das idéias. A história universal não é uma manifestação da razão. Marx em seu texto “Ideologia Alemã” constrói uma ciência da história e toma o materialismo como objeto dessa ciência. Com isso não é mais o desenvolvimento geral do espírito humano que explica a vida social como postulava o idealismo. Para Marx o pensamento é o reflexo do desenvolvimento material objetivo da história. O postulado básico de toda história humana são os indivíduos reais, a sua ação e suas condições reais de sobrevivência. O papel do historiador é o de entender a realidade partindo das condições materiais de existência dos indivíduos, assim deve entender os fios que reconstituem a trama histórica. Busca compreender a conexão e formas de intercâmbio que vão se delineando como uma história universal. Na opinião de Marx, são as formas específicas de produção que determinam as idéias dos homens e as configurações culturais. As idéias religiosas, jurídicas, morais são reflexos das relações econômicas. Decorre disso, que o próprio homem é determinado pelo seu “ser social”. É o comportamento material que fomenta suas representações e pensamento. “A forma como os indivíduos manifestam a sua vida, refletem muito exatamente aquilo que são. O que são, coincide, portanto, com a sua produção, isto é, tanto com aquilo que produzem como a forma como produzem. Aquilo que os indivíduos são depende, portanto, das condições materiais de sua produção” (Marx, 1976, p.19).
            Em Nietzsche a gênese do sujeito e do pensamento surge a partir das relações de intercâmbio material entre os homens, uma relação entre credor e devedor. Essa tese é mostrada na segunda dissertação do seu livro “Genealogia da Moral”. Segundo sua tese a relação entre credor e devedor tem um caráter civilizador, foi esta experiência cruel que estabeleceu a consciência e os valores morais na espécie humana. O indivíduo que não pagava uma divida ou não cumpria um contrato deveria sofrer uma experiência cruel na mão do seu credor. Não pagar uma divida poderia significar perder uma parte do seu corpo, ser fervido em óleo quente, ser comido por formigas ou perder sua mulher. Para que o homem adquirisse consciência foi preciso muitas mutilações, castrações, penhores e sacrifícios. “Pense-se nos velhos castigos alemães, como a apedrejamento (-a lenda já fazia cair à pedra sobre a cabeça do culpado) a roda (a mais característica invenção, a especialidade do gênio alemão no reino dos castigos!), o empalamento, o dilaceramento ou pisoteamento por cavalos (o ‘esquaterjamento’), a fervura do criminoso em óleo ou vinho (ainda nos séculos quatorze e quinze), o popular esfolamento (‘corte de tiras’), a excisão da carne do peito; e também a prática de cobrir o mal-feitor de mel e deixá-lo às moscas, sob o sol ardente. Com a ajuda de tais imagens e procedimentos, termina-se por reter na memória cinco ou seis ‘não-quero’, com as quais se fez uma promessa, a fim de viver entre os benefícios da sociedade – e realmente! com a ajuda dessa espécie de memória chegou-se finalmente a ‘razão’!” (Nietzsche, 1988, p.63).  Foi por meio desta experiência cruel que surgiu a faculdade que julga, discerne, compara. A razão tornou-se relação calculada entre meios e fins, tornou-se cálculo, operação e procedimento eficaz. O pensamento surgiu por meio cruéis e terríveis. O homem aprendeu “a distinguir o acontecimento casual do necessário, a pensar de maneira casual, a ver e antecipar a coisa distante como sendo presente, a estabelecer com segurança o fim e os meios para o fim, a calcular, contar, confiar – para isto, quanto não precisou antes se tornar ele próprio confiável, constante, necessário…” (Nietzsche, 1988, p.59).
        Esse sistema de crueldade não foi somente responsável por erigir a razão enquanto a faculdade que calcula e relaciona os meios com os fins, mas também como faculdade moral que compara entre o certo e o errado, entre o útil e prejudicial.  Nas relações práticas de comércio a memória foi treinada para a recordação dos deveres, das obrigações, dos contratos e compromissos. O não comprimento dos deveres criou a memória da má consciência, da culpa e do pecado. Na análise nitzscheana, o conceito moral de culpa teve origem no conceito concreto de “dívida”. Ele previu a origem da justiça e da moralidade dos costumes nas relações contratuais entre credor e devedor. A culpa não surge ligada à autonomia da vontade ou ao pecado religioso. Ela surge das relações de comércio e troca de bens e dinheiro. Ela surge da dívida. Através do medo e do terror das penalidades se fomentou a culpa na espécie humana. O não pagamento da dívida produz o castigo e a consciência do castigo produz a culpa. O indivíduo se sente culpado. Ele sabe que sua falta pode lhe causar o prejuízo de uma parte de seu corpo ou a perda de sua mulher. Foi assim que surgiu o homem responsável capaz de cumprir promessas.
         O diagnóstico de Nietzsche mostrou que o sentimento de culpa e obrigação pessoal surge da relação entre comprador e vendedor, credor e devedor. Esse foi o primeiro momento em que o homem aprendeu a comparar uma pessoa com a outra, a medir uma pessoa com outra. O homem é o único animal que tem valores, Nietzsche o chamou de “animal avaliador”. Comprar e vender passou a fazer parte da constituição psíquica dos indivíduos. O sentimento de troca, contrato, débito, direito, obrigação, compensação na medida em que começaram a fazer parte das práticas sociais, criou o hábito no homem de comparar, medir, calcular. A partir daí surgiu à razão e a consciência moral. “Ah, a razão, a seriedade, o domínio sobre os afetos, toda essa coisa sóbria que se chama reflexão, todos esses privilégios e adereços do homem: como foi alto o seu preço! Quanto sangue e quanto horror há no fundo de todas as ‘coisas boas’”. (Nietzsche, 1988, p.63).
        Do nosso ponto de vista, portanto, Marx e Nietzsche possuem uma mesma perspectiva quanto à gênese do sujeito e do pensamento. As formas de ser e pensar do ser humano foram determinados por aquilo que ele faz. O que o homem sempre fez em toda a história da civilização foi produzir e fazer comércio. Isso acabou por se impor a sua estrutura psíquica formando seus modos de ser, pensar, agir e valorizar. A racionalidade da produção e do comércio entendida como relação calculada entre meios e fins, definindo-se pela eficiência e pela capacidade de classificar, ordenar, dispor os objetos e os homens formou a razão como a faculdade de classificação, inferência e dedução, ou seja, como a faculdade que possibilita o funcionamento abstrato do mecanismo de pensamento. Da mesma forma através das relações de troca surgiram os valores, regras e normas do convívio social que fomentou a moralidade dos costumes. Foram os modos de produção e o comércio material entre os homens que construíram todas as instituições democráticas que conhecemos hoje. A produção e o comércio são produtos e ingredientes de nossa civilização.
BIBLIOGRAFIA
MARX, K & ENGELS, F. Ideologia Alemã. Lisboa. Editorial Presença, 1976.
NIETZSCHE,F.W. Genealogia da Moral. Trad. Paulo César Souza. São Paulo, Brasiliense, 1988.

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